domingo, 12 de agosto de 2007

No centenário do nascimento de Miguel Torga

A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Mensagem do Simas - de Lissiete a Namicoio Velho

Caros Companheiros de Armas.
Como sabemos foi produzida uma História da CCAÇ 4242, relatando algumas operações e acontecimentos ocorridos durante a nossa expedição Militar em Moçambique, entre Novembro de 1972 e Novembro de 1974, muito espartilhada e mais de acordo com os preceitos e regras militares de então do que com a verdadeira realidade dos acontecimentos.
Tínhamos que parecer bons soldadinhos a fim de evitar-se um castigo que seria eventualmente a nossa transferência para uma zona mais “quente” naquele teatro de guerra.
Vem isto a propósito de um extracto do relatório da acção da Lissiete a Namicoio, publicada pelo nosso incansável director Almeida Psicola na página da nossa Companhia e que, a meu ver, contendo algumas inverdades, para bem da verdade e pelo respeito devido a todos os intervenientes, deverei acrescentar o seguinte:
1 – Tínhamos saído do quartel pelas 05H30 e após quatro horas de trajecto, numa picada que não passavam viaturas há cerca de seis anos, não ia à frente qualquer equipa a fazer a picagem. Na frente da viatura ia o condutor, eu e o Roxo e na caixa, devidamente reforçada com sacos de areia, vinha o resto do 1º Pelotão.
O capim era mais alto que a viatura e os dois trilhos do rodado mal se viam.
A roda traseira do lado direito pisou uma mina anti carro TM 46 de fabrico americano. A jante e a borracha do pneu, reforçada com rede de aço, desapareceram vendo-se apenas algumas fitas que nem davam para fazer umas solas de sandália.
2 – Depois do enorme estrondo os companheiros começaram instintivamente a disparar as armas, ao que julgo, sem saberem para onde.
O pessoal que se encontrava operacional montou a segurança e prestou assistência aos mais abalados, que foram mais do foro psicológico e da coluna. Recordo-me que o soldado “Checa”, natural de Sintra, ficou bastante abalado pois que não reagiam ao que se passava à sua volta.
Ao Racal, o já falecido Fevereiro, fartava-se de chamar o Tabefe para anunciar o rebentamento de uma MIKE na PAPÁ mas, … nada. Então ele informa que o rádio, que apresentava uma grande amolgadela, não funcionava porque tinha eventualmente o cristal de frequência partido.
O Comandante do grupo deu-me então ordens para eu regressar a pé até à Companhia trazer a notícia e pedir auxílio. Insurgi-me dizendo que seria perigosíssimo pois que, estando a nossa presença denunciada, correríamos o risco de facilmente sermos apanhados à mão pelo IN.
Perante a insistência da ordem disse que só viria com uma secção o que me foi recusado, atendendo à necessidade de manter segurança à viatura, tendo-me sido permitido apenas vir com mais dois elementos.
Verificando-se a ausência de voluntários escolhi, se a memória não me falha, o cabo Polido e o soldado Lamego que, com alguma renitência aceitaram a missão.
3 –O regresso dos três ao quartel iniciou-se cerca do meio dia só com as G3 e sem qualquer meio de comunicação.
Estava a anoitecer, talvez cerca das 19H00, e estávamos a chegar ao aldeamento da Lissiete, quando nos deparamos com a vinda de uma Berliet do destacamento de Belém pois  que as nossas estavam avariadas.
4 -  Aí tomamos conhecimento que o Fevereiro conseguira falar para uma Companhia de Cabo Delgado que recebendo a mensagem a retransmitiu para a CCAÇ 4242, informando também que haviam três malucos a caminhar a pé, em direcção ao quartel o que, sendo noite, minimizou os riscos da aproximação à viatura.
5 – Confrontados com a solicitação de informação de como chegar à viatura acidentada e sem qualquer resposta possível não só pela altura do capim mas também por ser noite, por sinal bastante escura, e também por uma questão de solidariedade para com os companheiros que lá estavam, subimos para a viatura, Deus sabe com que forças, para regressarmos ao local do acidente.
6 – Lá chegados a Berliet de Belém fez a inversão de marcha, carregaram-se os feridos e o pessoal restante do 1º pelotão de regresso ao quartel tendo ficado o grupo de Belém a manter a segurança à viatura que demorou, por falta de peças, dois ou até mesmo três dias a ser reparada no local.
Tratava-se de um sítio muito isolado e, com o vai e vem de viaturas e de pessoas, a Frelimo, se quisesse e ou pudesse, poderia ter provocado danos muito maiores que, felizmente, não aconteceram.
Aqui fica este pobre mas sentido depoimento de quem viveu muitos momentos da referida operação e que, no fundo, pretende apenas fazer justiça a todos os que nela participaram mormente ao Cabo Polido e ao soldado Lamego pela coragem demonstrada.
Como poderão verificar qualquer semelhança desta crónica com o relato oficial é pura coincidência.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

"Conselhos ao Soldados do Ultramar"

“Em época de informação controlada pela censura e propaganda, transformar jovens europeus, camponeses e citadinos, em soldados capazes de viver e combater nos teatros africanos exigia o recurso a todos os meios, incluindo a arte e o humor.”
[D. N. Guerra Colonial: pag. 472 e 473] Clik na imagem para ampliar

terça-feira, 24 de julho de 2007

AEROGRAMAS - UMA FORMA (quase única ) DE CORRESPONDÊNCIA



SPM 6944 - ERA O CÓDIGO POSTAL (Serviço Postal Militar) DA C CAÇ 4242 - MANDIMBA

AEROGRAMAS

O Movimento Nacional Feminino (MNF) – estrutura do Estado Novo – foi o criador dos Aerogramas, com a finalidade de apoiar moral e socialmente os militares em serviço no Ultramar e suas famílias, muitas vezes com acções populares a que não faltava o cunho da demagogia.

Ao MNF se deve, pois, o lançamento dos aerogramas, alcunhados de “bate-estradas”, que constituíam o meio mais difundido de correspondência entre os militares e as suas famílias.

Destes aerogramas, cujo fornecimento e transporte era gratuito para os militares, estima-se que tenham sido impressos cerca de 300 milhões.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Tudo como dantes...quartel em Mandimba

Algures nos anos de 1972/74, em Moçambique já havia minis, e coca-cola e pepsi-cola.
Eram danados para elas! Elas, as 2M, Laurentina e Manica. De quando em vez vinham as bazukas.
Na foto, o nosso director (à esquerda) e o Azevedo.
Uns bacanos.

domingo, 15 de julho de 2007

Fernando Pessoa

HORIZONTE

Ò mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

O menino da sua mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa

sábado, 14 de julho de 2007

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

(...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio

Observe esta foto e a seguinte. Veja as diferenças...

terça-feira, 10 de julho de 2007

domingo, 8 de julho de 2007

Panfleto da Frelimo



DUM PANFLETO DA FRELIMO DEIXADO NAS MATAS DO NIASSA em 1973?

Milicianos:

“Nós da Frelimo sentimos o vosso tempo perdido de uma preocupação pela nossa situação que Portugal enfrenta nesta hipótese.

A vida que vós levam de andar a perseguir a força da Frelimo é em vão em curtas palavras.

Digamos vos que a Frelimo muito breve triunfará. Esta luta é para o bem do Povo.

Nós lutamos contra o colonialismo. Não contra o Povo."

sábado, 7 de julho de 2007