Como
sabemos foi produzida uma História da CCAÇ 4242, relatando algumas operações e
acontecimentos ocorridos durante a nossa expedição Militar em Moçambique, entre
Novembro de 1972 e Novembro de 1974, muito espartilhada e mais de acordo com os
preceitos e regras militares de então do que com a verdadeira realidade dos
acontecimentos.
Tínhamos
que parecer bons soldadinhos a fim de evitar-se um castigo que seria
eventualmente a nossa transferência para uma zona mais “quente” naquele teatro
de guerra.
Vem isto a propósito de um extracto do relatório da acção da Lissiete a
Namicoio, publicada pelo nosso incansável director Almeida Psícola na página da
nossa Companhia e que, a meu ver, contendo algumas inverdades, para bem da
verdade e pelo respeito devido a todos os intervenientes, deverei acrescentar o
seguinte:
Depois das recentes baixas dos Companheiros Castro e Moreira da Costa na mesma operação (ao mesmo tempo) eu e a minha companheira Ana sentimos um impulso ainda maior para atravessarmos o Atlântico e depois o Continente, para nos encontrarmos com os que ainda restam e seus familiares da nossa CCAÇ 4242, nas encostas da Serra da Estrela que, não sendo a mais alta de Portugal, muito bem aconchega a cidade da Covilhã outrora a capital dos lanifícios.
Sendo este motivo mais que suficiente ainda por cima o “embate” realizar-se-á no “Zé do Sporting” restaurante que já tive o prazer de conhecer aquando de uma anterior deslocação com o Santa Clara.
Sendo eu vermelho por dentro e por fora, (pois que, contrariamente ao que muitos estariam a pensar, sou do Santa Clara), muito gozo me dá jogar em casa do adversário.
Belos presuntos acompanhados de boa pinga.
Vamos todos … mas todos à Covilhã.
Esqueçamo-nos do Passos de Coelho e Cª. por um dia.
Um abraço a todose… até lá.
Miguel M. Simas.
PS – Em anexo, para que não haja confusões, cópia das passagens minha e da Ana pelo que, desde já agradecia a nossa inscrição no repasto do corpo e da alma.
É nos cenários de guerra que aparecem as maiores demonstrações de amizade segundo os livros.
Eu também tive um camarada que um belo dia em terras de Mandimba (Moçambique) demonstrou essa amizade, e vou passar a contar.
Decorria o ano de 1973, do século passado, e eu, não sei porquê, já não falava para o Silva (Furriel) há perto de dois meses, quando eu resolvo ir dar uma volta pela povoação ao anoitecer mas sozinho; pego numa caçadeira de 5 tiros e saio do quartel sem informar quem quer que fosse, pois a previsão era de estar pouco tempo fora do quartel, mas houve alteração de planos e fiquei toda a noite fora, procedimento que não era permitido por segurança.
Por do sol em Mandimba. Foto
do álbum do nosso director
A noite foi passando e o Silva lá ia perguntando pelo Mota aos furriéis que estavam na messe "então o Mota já apareceu?" O pessoal nada respondia; as cartas e as cervejas naqueles momentos ocupavam as suas cabeças, mas o Silva não desarmou e - segundo dizem - mal dormiu. A preocupação dele era tal que mal apareceram os primeiros raios de luz da manhã, prepara uma secção para ir à minha procura, mas não sabendo por onde começar.
Entretanto chego ao quartel e vejo o Silva já na porta de armas preparado para sair, e verifico que todos ficam muito calados a olhar para mim, como não falava para o Silva não liguei, quando ele me dirige a palavra e me informa que ia à minha procura.
Parei, meditei, e lá fomos para a messe tomar o pequeno almoço. Claro que nesse dia não se falou noutra coisa; primeiro porque queriam saber onde estive, segundo a contar-me a preocupação do Silva, pois a versão dele era que me tinham raptado.
- Patrulha moto para abertura de itinerário desde Aldeamento de Lissiete até Namicoio.
Havia uma hora que prosseguiam [a equipa de picagem ia à frente] quando a roda traseira do lado esquerdo da Berliet accionou uma mina anticarro, a coordenadas (1404,5-3553) deixando-a imobilizada [a viatura]. Imediatamente montou-se segurança para que os primeiros socorros fossem efectuados.
Apesar do esforço despendido pelo soldado de transmissões, só duas horas mais tarde se conseguiu contactar com a Companhia, dado o canal [rádio] de serviço se encontrar avariado. Como estava a tornar-se demorada a evacuação, o Comandante da força mandou o Furriel Simas mais uns voluntários empreender a caminhada até onde pudessem contactar com a Companhia [via rádio]. Este Grupo encontrou a viatura que tinha partido do Quartel de Mandimba, já perto do Aldeamento Lissiete, ficando no local do rebentamento o Grupo de combate Rato, a fazer a protecção à viatura.
Foto do album do Castro que mora na Trofa
SOFRIDOS – 5 feridos ligeiros:
- 1º Cabo – 06579772 – José Maria Pinto Moreira
- Soldado – 06510671 – Francisco Alves Ramalho
- Soldado - 75952072 – Carlos Manuel
Evacuado para a Enfermaria do Sector A:
- Soldado 01901172 – Luís Manuel Cabrita Martins
Evacuado para o Hospital Militar de Nampula, em 10SET1973:
É com profunda tristeza que vos comunico que faleceu JOSÉ JACINTO MOREIRA COSTA, ex-alferes da C. Caç. 4242. Um militar abnegado, de grandes valores humanos. Todos os que com ele conviveram sabem-no bem. Já lá vão mais de 40 anos da nossa permanência em terras africanas e a camaradagem que nos une jamais se apagará. Eterna saudade ao Costa e sentidos pêsames à sua esposa Fernanda e restante família, representando o espírito colectivo dos militares da C. Caç. 4242.
É com consternação que vos comunico que faleceu o nosso companheiro e estimado amigo, o Sargento Castro, com quem enfrentámos muitas dificuldades e partilhámos muitas alegrias; os que conviveram com ele sabem-no bem: era um homem respeitado e ao mesmo tempo animado.
A informação foi veiculada pelo Azevedo, através de quem poderão ser obtidas informações complementares, nomeadamente o funeral que se realizará amanhã, dia 23 de Junho, em Guimarães.
Deixo aqui uma foto da qual poderemos guardar uma eterna saudade do nosso amigo Castro:
Sargento Castro, de costas, ao centro.
Mensagem de Moreira Nunes (Cap.)
Estamos infelizmente no contagem decrescente do tempo da vida. Morreu um homem bom.
É triste receber notícias destas.Até breve amigo Castro.
Mensagem de Miguel Simas Em memória do Sargento Firmino José de Castro, neste dia 23 de Junho de 2015, que vai a sepultar algures em Guimarães.
Na CCAÇ 4242 o Sargento Castro foi um companheiro, um amigo e, atendendo à sua idade e experiência de vida e de Ultramar, até mesmo um pai.
Homem impulsivo, com tomadas de decisões bruscas e impetuosas manifestadas com o seu falar de trovão. Quando, com jeito, o fazíamos ver que as coisas não seriam bem assim, voltava atrás. Com o seu ar austero acabava por ser um homem dócil amigo da sua família e do seu amigo.
O Sargento Castro fez outras comissões no Ultramar e, tanto quanto saiba, nunca teve relações de amizade tão fortes como com os CCAÇs 4242. Éramos mesmo uma família.
Companheiro frequentador assíduo dos almoços anuais da nossa Companhia, sempre acompanhado da sua esposa, a última vez que nos abraçamos foi em Vizela em 2010. Soube que eu lá ia com o Santa Clara e fez questão de, antes de ele ir à missa com a sua família, lá ir dar-me um abraço.
Bem hajas Sargento Castro!
E o teu Guimarães carago…
Já sei que será menos uma chamada telefónica de Boas Festas a receber pelo Natal.
Castro, a despedida para o Além dói bastante aos que cá ficam. Paz à tua alma.
Miguel M. Simas
Um abraço.
------------------------------------------------------------------------------------------------- Mensagem de Mário Pinto VEIGA: Obrigado pela informação mas infelizmente
estou longe para estar presente mas paz à sua alma e que descanse em paz.
Já lá vão 42 anos quando sai do quartel em MANDIMBA com o meu amigo Aguiar (condutor) para ir avisar alguns elementos dos GEs para ir fazer uma operação, que para mim acabou ao tentar passar sobre o rio Mandimba.
Não vou entrar em pormenores, mas o que é certo é que eu o Aguiar e o jipe fomos todos parar no leito do rio que, por sinal, é de granito do lado esquerdo no sentido Mandimba - Lichinga.
Foto actual da mesma ponte
Como ficamos? Bem, eu fui projectado para fora do jipe e cai de costas, resultado algumas amolgadelas na coluna; o Aguiar ficou com as pernas e parte da bacia de baixo do jipe e foi evacuado para Portugal e o jipe foi para a sucata.
Aqui envio as fotos que tenho alusivas ao tema: uma da parte superior da ponte com o nosso amigo alf. Fernandes; outra tirada onde caÍ e outra ao jipe com o Mota em primeiro plano e alguns militares da C.CAÇ4242.
Obs. A ponte tinha 8,50 metros de altura.
Em 1977 ainda fui chamado ao tribunal de Anadia para prestar declarações e explicar como foi o acidente. Claro que já não me lembrava de nada.
O processo foi arquivado por falta de memoria... ààà....
Ò VENTURA, faz mais versos, gostei.
UM abraço a toda a familia da C.CAÇ4242 Moooootaaa
Após interrogatório sumário, o guerrilheiro apresentado, MANUEL MAIROSSE, declarou pertencer à BASE CATUR e fazer parte de um GR IN de 25 elementos armados. Eram portadores de 19 “KALASHNIKOV”, 1 “BASOOKA”, 1 “OPSH” e 6 “SIMONOV”. Transportavam 2 minas A/C, muito material para destruição das LCF [Linha Caminho de Ferro] e muitas minas A/P. Declarou existir depósito de material em TN [Território Nosso] na região coordenadas [1353.3543,5].
NT [Nossas Tropas] seguem para a referida região a fim de tentar capturar material existente e tentar interceptar restantes elementos do Grupo acima referido.
"(…) - Sentem-se – disse o Capitão. – Temos uma grande merda entre as mãos.
- Mas o que é que tu [capitão] querias, se tens o cu colado a essa cadeira, com as mãos por baixo? – espicaçou o Bernardo.
- Segundo as notícias que nos chegaram da DGS [pide], há a informação da passagem de um grupo de turras pelo norte do rio Luchímua, dirigindo-se para os montes Checulo. Vão seguir o 2º, 3º e 4º, e dois pelotões de GE. Tendes aqui as coordenadas. Comandará a operação o Cancela. Desenmerdem-se... E preparou-se para sair, quando pegou na boina. Mas, antes de chegar à porta:
Ruínas do Quartel em Mandimba
- Falem com os Furriéis, mas nada digam aos soldados. Eles receberão as rações de combate, para quatro dias quando estiverem no refeitório, após o que arrancam logo. A operação não será indicada a ninguém, nem mesmo aos guias. Entendido? – E saiu.
- Mas que grande merda. E logo aquele ventas de cu havia de se lembrar de nos mandar para o mato na altura do filme que vai dar na Administração – vociferou o alferes Checa (…). "
(Cancela Tropa – O Uivo da Dgs - História quase real de um militar da c. caç 4242)
24OUT1973 – (…) Amanhã tenho que
me levantar cedo para uma saída distante do quartel de Mandimba. Objectivo: uma
povoação perto da fronteira com o Malawi, na ponta final da nossa zona de
acção. Levo rações de combate para distribuir pela população, gasóleo para fazerem as lamparinas de iluminação e distribuir e colar cartazes de acção
psicológica, pois é esta a minha missão, sendo a de maior responsabilidade o
controlo das armas [mauser] distribuídas a elementos dos vários aldeamentos.
São distribuídas 5 munições [five polopolu], para caça, por mês, a cada
elemento, sendo que a dotação de 20 munições de reserva são intocáveis, em caso de defesa. Cada dia da semana vou a diversos locais [centros de
instrução] mandar limpar as ditas armas e inspeccionar as mesmas. (…)